33 - Canção a Dziewanna: O Arquétipo de Proteção da Natureza nas diferentes Culturas através dos Tempos.
Canção a Dziewanna: O Arquétipo de Proteção da Natureza nas diferentes Culturas através dos Tempos.
1 - Poema-Canção.
Canção a Dziewanna — A versão eslava da Ártemis (grega) e da Diana (romana).
Salve Dziewanna e os Entes Dévicos e Elementais da Natureza, nas florestas, rios e campos das regiões eslavas!
Estrofe 1.
Vestida de verde e dourado, ela caminha pela floresta, a deusa jovem, senhora inspirada, selvagem e bela, banhada pelo sol.
Onde ela pisa, a flor floresce; onde ela lança seu olhar, o animal se esconde.
Com um raio dourado, a rainha da floresta nos saúda pela manhã, eternamente severa.
Refrão.
Dziewanna, senhora das trilhas verdes, mãe dos cervos e dos pássaros livres.
Tu expulsas o inverno gelado dos campos e proteges os homens contra os maus agouros.
Com o arco tenso, ficas de guarda enquanto o velho mundo sonha com a primavera.
Glória a Ti, na densa floresta; que o teu nome nunca pereça.
Estrofe 2.
Aos caçadores, preparas caminhos seguros, mas ensinas a colher apenas o necessário.
Teus julgamentos são definitivos, escritos nas folhas sob o teto do céu.
Aos homens trazes ervas medicinais, ensinas como ouvir o riacho; iluminas as trevas, revelas tua face, dás-nos força e o poder do descanso.
Interlúdio.
Cheira a seiva, a resina, a musgo úmido.
Tu és o sopro alegre da terra.
Guia-nos pelo caminho, protege nossas forças, enquanto teu povo fiel entoa teu nome.
Refrão.
Dziewanna, senhora das trilhas verdes, mãe dos cervos e dos pássaros livres.
Tu expulsas o inverno gelado dos campos e proteges os homens contra os maus agouros.
Com o arco tenso, ficas de guarda enquanto o velho mundo sonha com a primavera.
E a floresta sussurra: Dziewanna está em nós.
2 - O Arquétipo da Guardiã da Natureza e suas Personificações.
2.1 - Ártemis, Diana e Dziewanna.
O arquétipo de proteção da Natureza parece ter nascido desde os primórdios da humanidade, na compreensão intuitiva de integração e dependência com o Meio Ambiente.
Essa preocupação é crescente nos tempos atuais também em relação às árvores, aos ecossistemas e aos animais, diante da extinção progressiva da biodiversidade, no descaso com o meio ambiente, na natureza e nas cidades.
Esse arquétipo se personificou na deusa grega Ártemis, assim como na divindade romana Diana, e também na númen eslava Dziewanna.
2.2 - O Arquétipo da Guardiã da Natureza no Brasil.
No Brasil, temos o "Espírito da Natureza", que, em cada região, assume uma forma diferente — às vezes como uma entidade protetora, às vezes como uma força da natureza.
Assim, tem-se Jaci - a Diana Lunar Brasileira - que, na mitologia Tupi-Guarani, é a Lua.
Diana é, tradicionalmente, a deusa romana da Lua e das florestas. Como Jaci também rege a noite, a vegetação, a reprodução e a proteção das plantas, ela ocupa um lugar paralelo na estrutura das divindades da natureza. Assim como Diana/Ártemis, Jaci possui uma soberania sobre o ciclo da vida e do tempo noturno.
Tem-se ainda a "Mãe das Matas" (O Arquétipo da Guardiã). Embora não tenham um nome único, várias entidades do folclore brasileiro atuam como a "Ártemis da floresta":
Caipora / Curupira (Versões femininas): Em várias vertentes do folclore, a figura que protege os animais, guia os caminhos na floresta e pune aqueles que caçam ou retiram da natureza mais do que o necessário (o desequilíbrio) possui o mesmo papel funcional de Ártemis: a de Guardiana dos Limites Naturais.
Kianumaka-Manã: Uma figura mitológica fascinante (a deusa onça) que possui força, agilidade e uma natureza híbrida. Ela representa o "sagrado feminino" em um estado de liberdade selvagem, muito próximo da autonomia que Ártemis manifesta em suas matas.
Tem-se ainda Iara (A Guardiã das Águas). Embora seja a "Mãe d'Água" (associada aos rios e lagos), Iara compartilha com Ártemis o status de ser uma entidade que domina um ecossistema específico e que exige respeito absoluto. Elas são figuras solitárias, poderosas e ligadas à energia vital dos elementos.
Iara tem alguma proximidade em personificação, na mitologia eslava, com Rusalka. Essa proximidade de arquétipo encontra eco no folclore brasileiro. No imaginário e nas histórias dos ribeirinhos e pescadores brasileiros, há menções de Entes das águas — muitas vezes descrita sob formas correlatas — as "Rusalkas Brasileiras". Isso sugere uma universalidade na percepção desses Entes das águas.
2.3 - A Rusalka na Mitologia Eslava.
Rusalka transita entre a natureza elemental e a memória humana trágica.
Ela é um espírito da água (frequentemente associada a rios, lagos e pântanos), mas que mantém uma ligação profunda com a terra e as florestas durante a primavera.
Em períodos mais antigos, a Rusalka era associada à fertilidade. Acreditava-se que, durante a primavera, elas saíam das águas para trazer umidade aos campos e favorecer o crescimento das plantações. Elas são, portanto, Entes que marcam a transição e a vitalidade do ciclo da primavera, conectando-se diretamente ao arquétipo da natureza indomada relacionado com Dziewanna, consolidando-se como um Ente-Limiar entre a memória humana e a fluidez das águas.
2.4 - Antonín Dvořák e a Ópera Rusalka.
Antonín Dvořák compôs uma das óperas mais célebres e comoventes do repertório romântico, intitulada simplesmente "Rusalka" (1901), com libreto de Jaroslav Kvapil.
Esta obra não é apenas uma encenação do folclore eslavo, mas uma exploração profunda do desejo, da alienação e do sacrifício.
Curiosamente, a inspiração para a obra veio da observação direta de Dvořák. Ele tinha uma casa de campo em Vysoká, onde frequentemente visitava uma lagoa isolada (tunka). Ele imaginava a heroína habitando aquele local, observando a lua. O lugar é hoje conhecido como a "Lagoa de Rusalka".
A ópera de Dvořák trata a floresta e o lago não como meros cenários, mas como Entes participantes que regem, com sua própria lógica, o destino dos que por eles cruzam.
3 - O Arquétipo da Natureza Guardiã no folclore brasileiro, musicalizado por Villa-Lobos.
Heitor Villa-Lobos dedicou grande parte da sua obra à celebração da fauna, da flora e do folclore brasileiro, capturando a força indomada da natureza através de uma linguagem que ele considerava "essencialmente brasileira". Em suas composições, a natureza não é um cenário passivo, mas um Ente vivo.
No poema sinfônico Uirapuru (1917), Villa-Lobos descreve a floresta como um ser participante. O Uirapuru — no folclore, o guardião dos segredos da mata, associado ao sagrado e à transformação — é o catalisador da narrativa. O ciclo de morte e renascimento do pássaro ressoa profundamente com a natureza das entidades que, à semelhança da Rusalka, transitam entre estados de existência.
Em Amazonas (1917), composto sob a inspiração do misticismo da floresta amazônica, a mata assume o papel de uma entidade soberana. Villa-Lobos utiliza ritmos que evocam os "mistérios da mata", onde o arquétipo da Guardiã se dilui na própria força da floresta, que se impõe perante o humano como uma natureza selvagem que exige respeito absoluto.
Em Choros No. 10 ("Rasga o Coração"), o uso de coros que clamam a terra assemelha-se a uma evocação ritualística. Ao incorporar o canto popular e elementos indígenas, o compositor eleva o folclore a uma forma de reverência.
Em suma, a manifestação musical do arquétipo da natureza como Ente soberano encontra em Villa-Lobos sua expressão máxima. Se Dziewanna é o arco e a caça, o Uirapuru de Villa-Lobos é o espírito que protege os mistérios da mata, provando que a métrica musical brasileira, à semelhança da tradição eslava, também reverencia os Entes que habitam o limiar entre o humano e o silvestre. Isso reafirma que o "Arquétipo da Guardiã" é universal, manifestando-se tanto na forma mitológica clássica (Dziewanna, Diana e Ártemis) quanto na forma sinfônica (Villa-Lobos).
4 - Outras Personificações eslavas do Arquétipo de Protetores da Natureza.
4.1 - Leshy.
O Leshy (ou Leszy) é uma figura central do folclore eslavo, atuando como o espírito guardião e soberano das florestas. Sua essência é profundamente fitomórfica, ou seja, ele possui uma conexão íntima com a própria vegetação; frequentemente, seus traços físicos — como pele com textura de casca de carvalho e barba feita de musgo e ramos — mimetizam o ambiente em que habita.
O Leshy possui a habilidade de alterar sua forma, podendo manifestar-se como um gigante que rivaliza com a altura das árvores mais antigas ou como uma criatura minúscula do tamanho de uma folha.
Ele não é um mero habitante da mata, mas um mediador que regula o equilíbrio do ecossistema, protegendo os animais e impondo limites ao trânsito humano dentro de seu território.
É visto como uma entidade dotada de sabedoria profunda, servindo como uma personificação da própria lógica e autonomia da floresta frente à interferência externa.
4.2 - Baba Yaga.
Baba Yaga é uma das figuras mais icônicas e ambivalentes do folclore eslavo, frequentemente descrita como uma bruxa ou um ser sobrenatural poderoso que habita as profundezas da floresta.
Sua residência é a mítica "Cabana sobre Patas de Galinha", uma estrutura que simboliza a natureza móvel e imprevisível deste ser.
Baba Yaga transcende a dualidade entre o bem e o mal; ela pode agir como uma mentora para heróis em busca de sabedoria ou como uma ameaça terrível para aqueles que desrespeitam os limites de seu território.
Ela é frequentemente retratada como uma personificação da natureza selvagem e indomável, carregando uma energia arquetípica que exige cautela e respeito absoluto de quem a encontra.
4.3 - Modest Mussorgsky e sua Suíte sobre Baba Yaga.
A Baba Yaga transcende o folclore eslavo para ocupar o imaginário artístico, sendo imortalizada na música erudita pelo compositor russo Modest Mussorgsky. Em sua célebre suíte para piano Quadros de uma Exposição (1874), inspirada na obra pictórica de Viktor Hartmann, Mussorgsky dedicou uma peça à icônica "Cabana sobre Patas de Galinha".
Nesta composição, o autor traduz a natureza ambivalente e imprevisível deste Ente através de uma métrica musical frenética, marcada por dissonâncias acentuadas e ritmos incisivos que evocam o movimento inusitado da morada da bruxa. Embora originalmente concebida para piano, a orquestração de Maurice Ravel (1922) conferiu à obra uma magnitude sonora que a tornou referência universal. Mais do que uma descrição folclórica, a peça de Mussorgsky é um retrato transcendental, onde a energia arquetípica da Baba Yaga é capturada em sua essência selvagem e indomável.
4.4 - Domovoy e Outros Espíritos da Natureza.
O Domovoy representa a extensão do arquétipo de proteção para o micro-cosmo do ambiente doméstico, sendo o espírito que habita as vigas e estruturas da residência.
A visão eslava não fragmentava a natureza da habitação humana; assim como o Leshy protege o ecossistema externo, o Domovoy assegura a harmonia interna do lar, estabelecendo uma continuidade entre o sagrado silvestre e o ambiente de convivência.
Esta tradição reflete a crença de que todo espaço é habitado por inteligências específicas que exigem respeito e propiciação, reafirmando a compreensão de que não estamos sozinhos no mundo, mas coabitando um sistema habitado por diversos Entes que zelam pela manutenção da ordem.
5 - Os Devas, os Elementais, as Fadas e as Ninfas.
Os Devas e Elementais constituem a infraestrutura invisível da Natureza, operando como agentes inteligentes que expressam e sustentam os quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo.
Enquanto os Devas são frequentemente associados a esferas evolutivas superiores e ao serviço direto aos reinos naturais, os elementais — por vezes referidos em diversas culturas como fadas, gnomos, ondinas ou sílfides — são as consciências que trabalham na matriz de ressonância de cada entidade física, desde minerais até a verdura que recobre a terra.
Esses seres habitam o plano etérico que permeia o nosso, e sua percepção requer o aguçamento dos sentidos internos, pois sua substância é única e específica ao elemento que representam.
Longe de serem meras figuras alegóricas, eles são descritos como inteligências conscientes com trajetórias evolutivas próprias, trabalhando em simbiose com o desenvolvimento planetário e reagindo, de forma sutil, às vibrações e intenções da humanidade.
6 - O Chamado-Inspiração das Guardiãs e dos Protetores da Natureza.
Em última análise, figuras como Dziewanna, Diana, Ártemis, Jaci, as Guardiãs das Matas e os Entes das Águas - estendendo-se a Francisco de Assis, na tradição cristã, Saraswati e Krishna, na cosmovisão indiana, bem como Leshy, Baba Yaga, Domovoy e Outros Espíritos da Natureza, na tradição eslava - não são apenas figuras do passado, mas personificações da própria Resiliência da Natureza.
A Resiliência da Natureza é, portanto, uma linguagem universal traduzida por diferentes culturas.
Em um mundo de transição tecnológica e ambiental, o reconhecimento desses Entes é um ato de reencontro com o sagrado. A Guardiã e os Protetores não apenas habitam a floresta e outros ecossistemas naturais; eles são a métrica que nos ensina a colher apenas o necessário, a ouvir o murmúrio dos rios e a reconhecer que, quando a natureza sussurra, ela o faz através da nossa própria consciência de que somos, em essência, parte de um todo inseparável.
A compreensão desses arquétipos nos convida a observar o mundo não como um recurso a ser extraído, mas como um sistema vivo de Entes que coabitam o mesmo espaço, exigindo de nós o respeito que a tradição, em sua sabedoria ancestral, sempre soube preservar.
Todos esses Entes são figuras mitológicas ou seres de evolução para-humana, paralela à humana - referenciados como devas na mitologia indiana e tibetana, ou logos ou arcontes nas derivações da mitologia grega.
7 - Evocação.
Enquanto Arquétipo de Guardiã, que a deusa Dziewanna -identificada à grega Ártemis e à romana Diana - atue como Rainha da legião de elementais, fadas e ninfas (das florestas, campos, mares, rios e lagos). Que ela, traduzindo esse arquétipo, como grande protetora da vida, continue a auxiliar os animais e todos os outros seres da Natureza na vida e no pós-morte, em comunhão com o trabalho de Saraswati, Krishna e suas respectivas legiões na teogonia hindu.
Não podemos deixar de lembrar e evocar a angelical Clara de Assis e o estelar Francisco de Assis, que nas tradições cristãs, erigiram-se também como grandes protetores dos animais e da biodiversidade. Que suas falanges multipliquem os seus trabalhos de misericórdia com os animais e outros seres da Natureza!

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